O impacto climático da construção civil: o alerta global que não podemos ignorar

O setor de construção civil sempre esteve no centro do desenvolvimento econômico, mas os dados mais recentes mostram que ele também se tornou um dos principais impulsionadores da crise climática.

Um estudo publicado na Nature Communications Earth & Environment revela que a pegada de carbono da construção não apenas cresceu de forma acelerada entre 1995 e 2022, mas pode dobrar até 2050 caso as práticas atuais se mantenham. A pesquisa analisa dezenas de países ao longo de quase três décadas e demonstra que, sem mudanças profundas, o setor poderá sozinho inviabilizar as metas climáticas estabelecidas pelo Acordo de Paris.

Essa conclusão é particularmente preocupante porque a construção, diferentemente de setores como energia e transporte, tem uma dependência muito maior de materiais cuja substituição exige transformações complexas e demoradas.

Materiais que pesam no clima: a raiz do problema

O estudo mostra que a maior parte das emissões da construção não vem do canteiro de obras, mas sim dos materiais que tornam esse setor possível. Em 2022, aproximadamente um terço de todas as emissões globais de CO₂ estava associado à construção civil — um aumento expressivo em comparação aos níveis de 1995. A maior parte dessa pegada vem do cimento e de todos os derivados que dependem dele, como o concreto. Fabricação de tijolos, argila e outros compostos de origem mineral também desempenham um papel central, compondo cerca de 40% das emissões do setor. Metais como aço, alumínio e cobre, essenciais para estruturas, reforços e acabamentos, representam mais uma fatia significativa.

O que o estudo destaca é que esses materiais não cresceram apenas em volume — eles se tornaram ainda mais determinantes para o funcionamento do setor.

Em muitos países, o desenvolvimento urbano acelerado levou a um aumento proporcionalmente maior de materiais intensivos em carbono, criando um ciclo difícil de romper.

Enquanto isso, materiais alternativos — como madeira engenheirada, bambu, compósitos e tecnologias inovadoras de baixo carbono — ainda ocupam uma parcela muito pequena do mercado global, seja pela falta de disponibilidade industrial, seja por limitações normativas e estruturais.

Um problema que se distribui de maneiras muito diferentes pelo mundo

Embora a construção seja uma atividade global, seus impactos climáticos não são uniformes. Países emergentes, como China, Índia e Brasil, tiveram um aumento expressivo na participação de materiais de alta intensidade de carbono em suas emissões totais.

No caso brasileiro, a participação desses materiais praticamente dobrou ao longo das últimas três décadas, refletindo uma urbanização rápida, associada ao uso tradicional de cimento e aço como base das obras. A China, por sua vez, se tornou o principal polo de emissões do setor, respondendo por quase metade da pegada global da construção em 2022. Isso ocorre porque sua expansão urbana foi mais intensa do que qualquer outra já registrada na história recente.

Nos países desenvolvidos, como os da União Europeia e os Estados Unidos, o cenário é diferente. Nessas regiões, o volume total de construção não cresce com a mesma velocidade, o que significa que as emissões tendem a ser mais estáveis e relacionadas principalmente à renovação de infraestrutura, e não à criação do zero.

Essa diferença regional reforça uma mensagem essencial do estudo: qualquer estratégia global para descarbonizar a construção precisa ser adaptada ao contexto local. Países em desenvolvimento enfrentam desafios distintos — e mais urgentes — do que aqueles que já passaram pelo pico de urbanização.

Projeções até 2050: o risco de ultrapassar todos os limites

Se a trajetória atual continuar, a construção civil poderá atingir cerca de 16 gigatoneladas (UM BILHÃO DE TONELADAS) de emissões de CO₂ por ano em 2050, segundo o cenário considerado mais provável no estudo.

Esse número, por si só, já representa um risco imenso, mas o problema se agrava quando comparado aos “orçamentos de carbono” projetados para limitar o aquecimento global a 1,5 °C ou 2 °C. O estudo mostra que o setor poderá consumir sozinho todo o orçamento de carbono compatível com a meta de 1,5 °C por volta de 2030. E, em relação à meta de 2 °C, o setor ultrapassaria o limite máximo permitido entre 2040 e 2045.

Esse quadro evidencia que, mesmo que todos os outros setores façam reduções significativas — como energia, transporte, indústria e agricultura — a construção civil poderia continuar sendo um gargalo que compromete o resultado final. Isso ocorre porque, na maior parte dos países, a demanda por infraestrutura, habitação e serviços urbanos continua crescente. Assim, reduzir emissões na construção não é apenas uma questão técnica: é também uma questão de política pública, planejamento urbano e decisões industriais de longo prazo.

impacto climático da construção civil

Figura 1. Projeções da pegada de carbono da construção no cenário tendencial (SSP2) e trajetórias de emissão para o cumprimento do Acordo de Paris.

 

impacto climático da construção civiL

Figura 2. Visão geral da pegada de carbono da indústria da construção.

 

Caminhos possíveis: uma transformação que precisa acontecer agora

O estudo apresenta diversas frentes para reduzir as emissões do setor, e todas elas exigem mudanças estruturais. A mais óbvia é a substituição de materiais. Cimento e aço podem ser parcialmente substituídos por alternativas de menor carbono, mas isso depende de investimentos significativos, revisão de normas, testes de qualidade e mudanças profundas em cadeias produtivas que foram estruturadas ao longo de décadas. Tecnologias como cimento ativado por álcalis, materiais bio-baseados e painéis pré-fabricados de baixo carbono já existem, mas sua adoção em larga escala ainda é limitada.

Além da troca de materiais, é necessário modernizar o maquinário e os processos industriais. Hoje, a maior parte da infraestrutura global foi construída para processar tecnologias tradicionais. Romper essa lógica exige novos padrões regulatórios, incentivos econômicos, capacitação técnica e uma transição coordenada entre governos, empresas e instituições financeiras.

É igualmente importante reconhecer que alternativas sustentáveis também têm seus desafios: materiais naturais podem pressionar ecossistemas, e inovações tecnológicas precisam garantir durabilidade, segurança e competitividade para se tornarem padrões viáveis.

O que esse cenário significa para o Brasil

Para o Brasil, os dados do estudo indicam tanto um risco quanto uma oportunidade. O risco está na continuidade do modelo atual: construímos com muito cimento, muito aço e poucos materiais alternativos. Se essa lógica não mudar, o país continuará contribuindo para o aumento das emissões globais — e se distanciando das metas climáticas internacionais. Por outro lado, existe uma enorme oportunidade em liderar a transição para materiais de baixo carbono, especialmente considerando o potencial brasileiro em bioeconomia, manejo florestal sustentável, inovação em engenharia e industrialização de novos materiais.

Instituições financeiras, empresas do setor, cooperativas, arquitetos e gestores públicos têm papel fundamental nesse processo. Investimentos certos — apoiados por ciência, planejamento e visão de longo prazo — podem posicionar o Brasil como protagonista nessas mudanças.

impacto climático da construção civil

Figura 3. Classificação regional e contribuição relativa para a pegada de carbono global da construção em 1995

Conclusão

O estudo deixa uma mensagem clara e contundente: se a construção continuar seguindo o padrão atual, não haveria carbono suficiente no orçamento global para manter o aquecimento dentro dos limites desejados. Mudar o curso é indispensável, e essa mudança precisa começar agora. O setor de construção carrega um peso que vai muito além de tijolos, vigas e concreto — ele carrega uma responsabilidade real sobre o futuro climático do planeta.