Em ambientes industriais e logísticos, especialmente em galpões de grande porte, o controle térmico deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade estratégica. A combinação entre estruturas metálicas, grande exposição solar e intensa atividade operacional cria um cenário propício ao acúmulo de calor, impactando diretamente tanto a eficiência energética quanto o desempenho humano. Nesse contexto, o isolamento térmico e a cor do telhado e das paredes e as soluções complementares, como as estratégias de ventilação, assumem papel central na construção de ambientes mais sustentáveis, produtivos e seguros.

Galpões industriais, em sua maioria, são construídos com materiais de alta condutividade térmica, como o aço. Esse tipo de estrutura facilita a transferência de calor entre o ambiente externo e interno, fazendo com que, em dias quentes, a temperatura interna ultrapasse facilmente os níveis de conforto e recomendados pelas Normas de Higiene Ocupacional. Sem tratamento adequado, o telhado se transforma em uma superfície de intensa radiação térmica, irradiando calor para o interior do espaço e elevando significativamente a sensação térmica.

Soluções de isolamento e eficiência energética

O isolamento térmico atua justamente no controle dessa troca de calor. Ao criar uma barreira física entre o ambiente externo e o interno, ele reduz a carga térmica incidente e estabiliza a temperatura interna. Materiais como lã de vidro, lã de rocha, poliuretano e poliestireno expandido são amplamente utilizados por sua capacidade de reduzir a condução térmica. Já a cor do telhado pode atuar refletindo a radiação solar, impedindo que o calor seja absorvido pela estrutura do telhado.

Essa combinação de estratégias não apenas melhora o conforto térmico, mas também impacta diretamente o consumo energético. A instalação de ar condicionado nestes ambientes, pode, muitas vezes, ser inviável economicamente pelas dimensões, portanto, estratégias passivas devem ser estudadas para melhorar o conforto, com baixo, ou menor, custo de investimento inicial.

Conforto térmico e impacto na produtividade

O conforto térmico está diretamente relacionado ao desempenho humano. Estudos na área de ergonomia e engenharia de produção demonstram que temperaturas elevadas afetam a capacidade cognitiva, aumentam a fadiga e reduzem a concentração. Em ambientes industriais, isso se reflete em menor produtividade, maior incidência de erros e aumento no risco de acidentes.

O conceito de conforto térmico envolve um equilíbrio entre variáveis ambientais e humanas. Temperatura do ar, umidade relativa, velocidade do vento e radiação térmica são fatores físicos determinantes. Ao mesmo tempo, aspectos como nível de atividade do trabalhador e tipo de vestimenta também influenciam a percepção térmica. Quando esse equilíbrio é rompido, o organismo precisa trabalhar mais para manter sua temperatura interna, gerando desgaste físico e mental.

O fator humano e os riscos operacionais

Em galpões logísticos, onde a atividade é intensa e muitas vezes repetitiva, esse impacto se torna ainda mais evidente. Trabalhadores expostos a calor excessivo tendem a apresentar queda de rendimento ao longo do dia, além de maior propensão a problemas de saúde, como desidratação e exaustão térmica. Nesse sentido, o investimento em soluções de isolamento e controle térmico não deve ser visto apenas como uma questão de eficiência, mas como uma medida de saúde ocupacional.

Casos recentes no setor logístico reforçam essa discussão. Reportagens envolvendo operações de grandes empresas, como uma das maiores empresas de marketplace, trouxeram à tona relatos de trabalhadores submetidos a ambientes com altas temperaturas, metas agressivas, pressão constante por desempenho e até óbito. Embora o problema não se limite somente à questão térmica, o ambiente físico desempenha um papel relevante na amplificação dessas condições. O calor excessivo, combinado com exigências operacionais elevadas, cria um cenário de estresse físico e psicológico que pode comprometer a saúde e a segurança dos colaboradores.

Esse tipo de situação evidencia a necessidade de uma abordagem integrada. Não basta apenas otimizar processos e buscar eficiência operacional sem considerar as condições ambientais em que o trabalho é realizado. A infraestrutura térmica deve ser planejada como parte essencial do projeto industrial, e não como um elemento secundário ou corretivo.

Análise de conforto aplicada a Caso real 

Em galpão logístico de aproximadamente 50.000 m2, localizado na cidade de Navegantes – SC, realizamos um estudo de análise de conforto térmico, por meio de simulações termo-energéticas, buscando opções construtivas que ajudem a manter o edifício em uma faixa de temperatura agradável durante o ano.

A análise é feita baseada na metodologia de conforto adaptativo da norma ASHRAE 55, onde o conforto térmico em ambiente construído depende das temperaturas médias mensais da cidade, e com base nessas médias, é definida uma faixa de temperatura aceitável de +- 2.25 °C.

Iniciamos o nosso estudo fazendo um modelo de comparação, com todas as características simuladas com base nas informações de projetos, como por exemplo, as características térmicas dos vidros e envoltória, incluindo a cobertura, a qual não possuía nenhum tipo de pintura com alta refletância solar ou material isolante. 

Esse modelo inicial resulta em apenas 50% do tempo dentro da faixa de conforto adaptativo, enquanto 26% do ano é de desconforto por calor – o restante do tempo é desconforto por frio e ocorre em horários noturnos. Esses resultados estão sendo demonstrados por meio de gráficos, onde as condições são representadas por cores: vermelho (“Quente”), verde (“Bom”) e azul (“Frio”). O eixo horizontal indica os dias do ano e o vertical, as 24 horas do dia.

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Para verificar o impacto da cor da cobertura, realizamos uma simulação testando o impacto da pintura de alta refletância solar, com SRI acima de 90. Essa medida impacta diretamente nos resultados de conforto térmico, aumentando o tempo que o galpão passa na faixa de temperatura aceitável de 50% para 52% do ano e o desconforto por calor passa para 25%.

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Além disso, também testamos o uso de isolamento térmico na cobertura, com uma telha sanduíche com isolamento térmico em lã de vidro de 63,5 mm. Esta medida, em conjunto com a pintura de alta refletância, foi a que teve maior impacto quando se trata do conforto térmico deste galpão logístico. Os resultados dessa medida foram extremamente satisfatórios, onde o tempo em que o edifício passa dentro da faixa de temperatura aceitável é de 67% do ano, enquanto o tempo de desconforto por calor passa a ser apenas 9% do ano.

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Testamos também o impacto de uma pintura de alta refletância nas paredes externas do galpão logístico, combinado com as medidas anteriores. Essa nova medida apresenta mantém os mesmos 67% do ano dentro da faixa aceitável de temperatura, porém diminui o tempo de desconforto por calor para menos de 8% do ano.

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O conforto térmico em galpões industriais é um fator estratégico que impacta diretamente a produtividade, a segurança e os custos operacionais. Como demonstrado, decisões técnicas bem fundamentadas — como o uso de isolamento térmico e superfícies de alta refletância — podem reduzir significativamente o desconforto por calor e melhorar o desempenho do ambiente ao longo do ano.

Com o apoio do Estúdio Letti, é possível tomar decisões mais assertivas por meio de simulações e análises precisas. Entre em contato e descubra como otimizar o desempenho térmico do seu galpão com soluções eficientes e baseadas em dados.