A transição energética costuma ser associada à expansão de painéis solares, parques eólicos e veículos elétricos. No entanto, existe uma parcela importante do consumo de energia que não pode ser resolvida simplesmente com a eletrificação: o calor necessário para processos industriais. É justamente nesse campo que soluções como biomassa, biogás e biometano começam a ganhar relevância.

Um exemplo recente vem do setor cervejeiro. A Heineken anunciou, em parceria com a Veolia, um projeto para transformar a matriz térmica de sua cervejaria em Jacareí, no interior de São Paulo. A iniciativa prevê a utilização combinada de biometano e biomassa para alimentar as caldeiras responsáveis pela produção de vapor utilizado no processo industrial. A operação deverá atingir sua capacidade plena em 2027 e está projetada para evitar aproximadamente 67 mil toneladas de emissões até 2030.

Mais do que uma iniciativa isolada de uma grande empresa, o projeto evidencia um dos principais desafios da descarbonização industrial: reduzir as emissões não apenas da eletricidade consumida pelas fábricas, mas também da energia térmica necessária para produzir, processar e transformar materiais.

O calor é um dos grandes desafios da transição energética

A eletrificação da economia é uma das principais estratégias para reduzir o uso de combustíveis fósseis. Porém, nem todo processo industrial pode ser facilmente eletrificado. Em muitas fábricas, o calor é produzido por meio da queima de combustíveis em caldeiras, fornos ou outros equipamentos.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o calor representa quase metade do consumo final de energia do mundo e cerca de 37% das emissões de CO₂ relacionadas à energia. Na indústria, a demanda por calor continua crescendo, enquanto a participação das fontes renováveis ainda é relativamente limitada.

Isso ajuda a explicar por que substituir o combustível utilizado em uma caldeira pode ser tão relevante quanto contratar eletricidade renovável.

No caso da Heineken, a companhia já vinha avançando na substituição da eletricidade convencional por fontes renováveis. O desafio seguinte é justamente a geração de vapor. A cervejaria precisa de energia térmica para etapas fundamentais da fabricação da bebida, e a mudança da matriz energética dessa operação permite atacar uma fonte diferente de emissões.

A estratégia também está alinhada à meta global da companhia de alcançar emissões líquidas zero em suas operações até 2030 e em toda a cadeia de valor até 2040.

Por que utilizar biometano e biomassa?

A solução adotada em Jacareí combina dois combustíveis renováveis: biomassa e biometano.

A biomassa pode incluir materiais de origem vegetal, como resíduos e madeira proveniente de florestas plantadas. Quando utilizada em caldeiras, ela substitui combustíveis fósseis na produção de vapor.

Já o biometano é produzido a partir da purificação do biogás, que surge da decomposição anaeróbica de matéria orgânica. Dependendo da origem do resíduo, pode ser produzido a partir de resíduos agropecuários, efluentes industriais, resíduos urbanos ou outras fontes orgânicas.

Essa característica é particularmente interessante porque transforma um problema de resíduos em uma fonte de energia.

No projeto da Heineken, a combinação das duas fontes deverá permitir a produção de aproximadamente 110 mil toneladas de vapor por ano. A Veolia será responsável pela engenharia, construção, operação e manutenção da infraestrutura térmica, enquanto o contrato de fornecimento de combustível poderá movimentar até R$ 460 milhões até 2037.

O modelo também mostra uma tendência importante: a descarbonização industrial não necessariamente dependerá de uma única tecnologia. Diferentes fontes podem ser combinadas de acordo com as características de cada fábrica.

Uma solução que vai além da eletricidade renovável

Existe uma diferença importante entre eletrificar uma fábrica e descarbonizar uma fábrica.

Uma indústria pode comprar eletricidade de fontes renováveis e, ainda assim, utilizar gás natural ou outros combustíveis fósseis para produzir calor. Por isso, a transição energética precisa considerar diferentes formas de consumo.

A própria Heineken reconhece essa questão em sua estratégia global. A empresa afirma que a energia térmica representa cerca de 70% de sua demanda energética, tornando sua substituição uma das partes mais difíceis da jornada rumo ao net zero. A companhia vem avaliando alternativas como biomassa, biogás, biometano, recuperação de calor e eletrificação.

Dados da IEA reforçam esse cenário. Em 2024, apenas 14% do consumo mundial de calor era atendido por fontes renováveis modernas. Na indústria, a bioenergia permanece especialmente importante porque consegue fornecer calor diretamente aos processos produtivos.

Isso significa que a discussão sobre transição energética precisa deixar de olhar exclusivamente para a geração de eletricidade. Para setores como alimentos, bebidas, papel e celulose, química e outros segmentos industriais, a pergunta também é: como produzir calor sem depender de combustíveis fósseis?

O Brasil tem uma vantagem competitiva

O Brasil possui características que podem favorecer a expansão da bioenergia.

O país tem uma enorme disponibilidade de biomassa associada à agropecuária, ao setor sucroenergético, às florestas plantadas e à produção de resíduos orgânicos. Também possui uma cadeia de biocombustíveis mais desenvolvida do que a de muitos outros países.

O mercado de biometano, embora ainda esteja em desenvolvimento, vem crescendo. Segundo a EPE, ao final de 2024 havia dez usinas autorizadas pela ANP para produzir biometano, com capacidade total de 656 mil Nm³ por dia. No primeiro semestre de 2025, esse número havia chegado a 14 unidades e 841,9 mil Nm³ por dia de capacidade acumulada.

A ANP também registrou uma expansão de 43,7% na capacidade autorizada de produção de biometano no país em 2025. A agência vem avançando ainda na regulamentação do mercado e na estruturação de mecanismos de garantia de origem do combustível.

Esse crescimento pode ser especialmente relevante para a indústria. Em vez de utilizar um combustível fóssil extraído do subsolo, empresas podem utilizar gases produzidos a partir de resíduos que já fazem parte da economia local.

É uma lógica próxima à economia circular: aquilo que antes representava um passivo ambiental passa a ter valor econômico e energético.

Mas bioenergia não significa automaticamente impacto zero

É importante, porém, evitar uma simplificação: renovável não é sinônimo de impacto ambiental zero.

A sustentabilidade da biomassa depende da origem da matéria-prima, do manejo florestal, da logística, da eficiência dos equipamentos e das emissões associadas à cadeia de fornecimento.

No caso da madeira utilizada para energia, por exemplo, o fato de ser proveniente de uma floresta plantada não significa que qualquer cadeia de produção seja automaticamente sustentável. É necessário avaliar origem, rastreabilidade, manejo e uso do solo.

Por isso, a certificação ganha importância. No projeto de Jacareí, os combustíveis utilizados terão certificação da Roundtable on Sustainable Biomaterials (RSB), que estabelece critérios para a sustentabilidade das matérias-primas e dos combustíveis de origem biológica.

A própria trajetória da Heineken mostra essa preocupação. A empresa já utiliza biomassa em diversas cervejarias brasileiras e informa que suas iniciativas incluem madeira de reflorestamento certificada e o aproveitamento de biogás.

Descarbonizar também é repensar a cadeia produtiva

Outro ponto importante é que a energia utilizada dentro da fábrica representa apenas uma parte da pegada de carbono de uma cerveja.

Segundo a Heineken Brasil, agricultura, embalagens, distribuição e refrigeração respondem por aproximadamente 99% de sua pegada de carbono. Isso significa que tornar uma fábrica mais eficiente energeticamente é fundamental, mas não suficiente para alcançar uma cadeia de valor de baixo carbono.

A própria companhia estabeleceu como ambição chegar ao net zero em toda a cadeia de valor até 2040, enquanto busca atingir esse objetivo nos escopos 1 e 2 até 2030.

Na prática, isso envolve uma transformação que vai muito além das caldeiras: matérias-primas, embalagens, transporte, refrigeração, fornecedores e até o consumo do produto precisam entrar na equação.

Um laboratório para a indústria brasileira

O projeto de Jacareí é interessante justamente porque combina tecnologia, infraestrutura e fornecimento de energia renovável em escala industrial.

Sua importância não está apenas nas toneladas de CO₂ que podem deixar de ser emitidas. O projeto funciona como um exemplo de como a indústria pode substituir combustíveis fósseis em processos que exigem fornecimento contínuo de calor.

O caminho para uma indústria de baixo carbono provavelmente será composto por várias soluções simultâneas. Eletrificação, eficiência energética, recuperação de calor, energia solar, biomassa, biogás, biometano e, em alguns setores, hidrogênio de baixo carbono, deverão ocupar espaços diferentes.

Nesse cenário, o Brasil possui uma oportunidade particular. A abundância de biomassa e resíduos, combinada com uma matriz elétrica relativamente renovável e uma indústria de biocombustíveis consolidada, pode colocar o país em posição competitiva na corrida pela descarbonização industrial.

O caso da Heineken mostra, portanto, que a transição energética não acontece apenas quando uma empresa instala painéis solares ou compra energia eólica. Ela também acontece quando uma caldeira deixa de queimar combustível fóssil para produzir o vapor que mantém uma fábrica funcionando.

A grande questão para os próximos anos será transformar iniciativas desse tipo em soluções escaláveis, economicamente competitivas e ambientalmente verificáveis. Se isso acontecer, resíduos agrícolas, efluentes e biomassa poderão deixar de ser vistos apenas como subprodutos e passarão a ocupar um papel estratégico em uma nova economia de baixo carbono.

A descarbonização industrial, afinal, não será feita com uma única tecnologia. Será resultado da combinação entre eficiência, inovação, energia renovável e capacidade de transformar recursos que antes eram descartados em novas fontes de valor.