A construção civil tem um papel central na redução dos impactos ambientais associados às cidades. Edifícios consomem energia e água durante sua operação e também carregam impactos relacionados aos materiais utilizados em sua construção. Nesse cenário, as certificações ambientais ajudam a transformar conceitos de sustentabilidade em critérios mensuráveis e verificáveis.
Entre as alternativas disponíveis está a certificação EDGE (Excellence in Design for Greater Efficiencies), desenvolvida pela International Finance Corporation (IFC), integrante do Grupo Banco Mundial. A proposta é tornar a construção de edifícios eficientes mais acessível, combinando desempenho ambiental, análise de custos e viabilidade econômica.
Mas o que exatamente a certificação EDGE avalia? Quais são seus critérios? E por que essa certificação pode ser estratégica para um edifício?
O que é a certificação EDGE?
EDGE é um sistema internacional de certificação para edificações sustentáveis que também funciona como uma ferramenta de planejamento. Seu nome vem de Excellence in Design for Greater Efficiencies, ou Excelência em Projeto para Maior Eficiência.
O sistema foi criado pela IFC para estimular a adoção de soluções de eficiência em mercados onde o crescimento urbano e imobiliário é acelerado. Atualmente, a metodologia é utilizada em diversos países e foi desenvolvida para diferentes tipos de edificações.
Um dos diferenciais do EDGE está na utilização de uma plataforma digital gratuita, o EDGE App, que permite simular o desempenho do edifício ainda durante as etapas de projeto. A equipe pode testar diferentes estratégias, comparar resultados e avaliar quais soluções apresentam melhor relação entre investimento e economia de recursos.
Assim, a certificação não precisa ser tratada apenas como uma etapa posterior à construção. Ela pode participar das decisões de projeto desde o início.
Quais aspectos o EDGE avalia?
A metodologia concentra sua análise em três grandes frentes:
- consumo de energia;
- consumo de água;
- energia incorporada nos materiais, relacionada aos impactos associados à produção dos materiais utilizados na edificação.
Para obter a certificação EDGE, o projeto precisa demonstrar uma redução mínima de 20% nos três indicadores, em comparação com uma edificação de referência baseada nas condições locais.
Essa abordagem é importante porque evita que a sustentabilidade seja analisada a partir de um único aspecto. Um edifício pode ter baixo consumo de energia, por exemplo, mas utilizar soluções que apresentem alto impacto na produção de materiais. O EDGE procura equilibrar essas diferentes dimensões.
Como funciona a eficiência energética no EDGE?
A eficiência energética é uma das principais áreas avaliadas pela certificação. O objetivo é reduzir a quantidade de energia necessária para que o edifício funcione adequadamente.
Para isso, diferentes estratégias podem ser consideradas no projeto, como melhorias na envoltória da edificação, proteção solar, isolamento térmico, iluminação eficiente, sistemas de climatização mais eficientes e utilização de fontes renováveis.
O desempenho não é analisado de maneira isolada. O EDGE utiliza informações relacionadas ao edifício, à localização e às condições climáticas para estimar o consumo energético e comparar o projeto com uma referência local.
Essa característica torna a análise particularmente relevante para projetos situados em diferentes regiões, já que as estratégias adequadas para um edifício em um clima quente e úmido podem ser diferentes daquelas indicadas para uma região de clima mais frio.
Uso eficiente da água
A segunda frente da certificação é o consumo de água.
Nesse caso, o projeto pode incorporar soluções como metais e louças sanitárias de baixo consumo, sistemas de aproveitamento de água, captação de água da chuva e outras estratégias voltadas à redução da demanda hídrica.
A redução do consumo de água pode gerar dois resultados importantes. O primeiro é ambiental, ao diminuir a pressão sobre os recursos hídricos. O segundo está relacionado à operação do edifício, já que um consumo menor pode representar redução nas despesas associadas ao abastecimento e ao tratamento da água.
Por isso, a análise deve considerar a eficiência desde a especificação dos equipamentos até as características de uso da edificação.
E o que são os materiais incorporados?
Um dos pontos que diferencia o EDGE de algumas abordagens mais tradicionais de eficiência predial é a consideração da energia incorporada nos materiais.
Esse conceito está relacionado à energia utilizada ao longo dos processos necessários para produzir e disponibilizar determinados materiais para a construção. A escolha de materiais, portanto, também influencia o desempenho ambiental de um edifício.
O EDGE permite avaliar alternativas de materiais e sistemas construtivos para identificar oportunidades de redução desse impacto. A metodologia considera essa dimensão juntamente com energia e água para estabelecer o desempenho mínimo necessário à certificação.
Essa análise amplia a visão sobre sustentabilidade na construção: não basta observar apenas o que acontece depois que o edifício entra em operação. As decisões tomadas durante a especificação e a construção também possuem consequências ambientais.
Quais são os níveis de certificação EDGE?
O EDGE possui diferentes níveis de desempenho, permitindo que os projetos avancem além dos requisitos básicos.
O primeiro nível é o EDGE Certified, concedido aos projetos que atingem pelo menos 20% de economia em energia, água e energia incorporada nos materiais em relação à referência estabelecida pela metodologia.
Também existe o EDGE Advanced, destinado a projetos que alcançam pelo menos 40% de redução no consumo de energia no local, mantendo os requisitos mínimos de economia de água e materiais.
Em um nível ainda mais elevado está o EDGE Zero Carbon, voltado a edificações que apresentam desempenho energético muito elevado e estratégias para lidar com as emissões de carbono operacional remanescentes.
Dessa forma, o sistema pode acompanhar diferentes níveis de ambição dentro de uma estratégia de sustentabilidade.
Por que a certificação EDGE é importante para um edifício?
A importância do EDGE está relacionada à capacidade de transformar decisões de sustentabilidade em indicadores concretos.
Para proprietários e incorporadores, isso significa poder avaliar desde o projeto quais medidas podem reduzir o consumo de recursos e quais investimentos são necessários para implementá-las. O próprio EDGE App permite estimar custos incrementais e analisar diferentes combinações de estratégias.
Na prática, isso pode ajudar a responder uma pergunta fundamental: quanto custa tornar um edifício mais eficiente e qual retorno essas medidas podem proporcionar?
A resposta pode envolver economia de energia e água durante a operação, redução de impactos ambientais e diferenciação do empreendimento no mercado.
Eficiência também significa redução de custos operacionais
Um edifício eficiente tende a demandar menos recursos para funcionar.
A redução do consumo energético pode diminuir despesas relacionadas à climatização, iluminação e demais sistemas elétricos. Da mesma forma, soluções de eficiência hídrica podem reduzir os custos associados ao consumo de água.
Essa relação entre desempenho ambiental e desempenho econômico é um dos pilares do EDGE. A IFC destaca justamente a possibilidade de utilizar a metodologia para identificar soluções eficientes e avaliar seus impactos financeiros.
Para um empreendimento que permanecerá em operação durante décadas, decisões tomadas na fase de projeto podem produzir efeitos financeiros durante todo o ciclo de vida do edifício.
Certificação e valorização do empreendimento
A certificação também pode contribuir para o posicionamento de um empreendimento no mercado.
Em um cenário no qual questões ambientais ganham espaço nas decisões de empresas, investidores, usuários e instituições financeiras, apresentar um desempenho ambiental certificado oferece uma forma objetiva de demonstrar determinadas características do projeto.
O EDGE também está alinhado a iniciativas relacionadas ao financiamento verde e a padrões internacionais de investimento sustentável.
Isso pode ser especialmente relevante para incorporadores e proprietários que desejam associar seus empreendimentos a estratégias de sustentabilidade e eficiência de recursos.
Como funciona o processo de certificação?
O processo começa com o registro do projeto e sua inserção na plataforma EDGE. A equipe responsável fornece informações sobre as características da edificação e seleciona as estratégias de eficiência consideradas no projeto.
A plataforma calcula os resultados e permite identificar se o empreendimento alcança os níveis exigidos.
Depois dessa etapa, ocorre a verificação independente. Um auditor EDGE avalia as informações e os documentos apresentados para verificar se os requisitos foram atendidos. A certificação é então concedida por uma entidade autorizada.
Essa verificação é importante porque transforma as estimativas de desempenho do projeto em uma avaliação independente e reconhecida internacionalmente.
EDGE ou outra certificação ambiental?
Não existe uma única certificação adequada para todos os projetos. Sistemas como LEED, BREEAM e EDGE possuem metodologias, objetivos e níveis de complexidade diferentes.
O diferencial do EDGE está no foco quantitativo em energia, água e materiais, combinado à possibilidade de simular alternativas e seus custos ainda durante o desenvolvimento do projeto. A metodologia foi concebida para oferecer uma abordagem mais direta e acessível à eficiência de recursos.
Por isso, a escolha deve considerar o perfil do empreendimento, os objetivos de sustentabilidade, o nível de desempenho desejado e as demandas de seus investidores e usuários.
Um edifício preparado para os próximos anos
A sustentabilidade na construção civil está deixando de ser apenas uma questão de posicionamento e passando a fazer parte das decisões técnicas e econômicas dos empreendimentos.
Nesse contexto, a certificação EDGE oferece uma metodologia para medir resultados e orientar escolhas. Ao estabelecer metas objetivas para energia, água e materiais, ela permite que a eficiência seja incorporada ao projeto de forma estruturada.
Para quem está desenvolvendo ou reformando um edifício, considerar o EDGE desde as primeiras etapas pode ajudar a identificar oportunidades que seriam mais difíceis ou caras de implementar posteriormente.
A certificação, portanto, não deve ser vista apenas como um selo ao final do processo. Seu principal valor está na possibilidade de usar dados de desempenho para tomar decisões melhores durante o desenvolvimento do edifício.
Em um mercado que busca reduzir custos operacionais, impactos ambientais e consumo de recursos, essa combinação entre sustentabilidade, desempenho e viabilidade econômica torna o EDGE uma alternativa relevante para projetos que desejam avançar na eficiência de suas edificações.